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Mulher foi acusada de furto por segurança de farmácia, 'se eu fosse branca, não me abordaria', disse ela

Por Notícia na Tela
6 de maio de 2019 16:51 Comentários
Foto:Divulgação
Primeiro foi preciso recuperar a autoestima para então tornar a sua dor pública. “Se eu fosse uma mulher branca de turbante, ele não me abordaria”, diz Maria Angélica Calmon, 54 anos, assessora de formatura e eventos, que acusa um segurança da farmácia Drogasil do Salvador Shopping de racismo. 

Maria Angélica conta que estava com a neta de 7 anos, quando um funcionário da farmácia a abordou alegando que uma câmera da loja havia registrado o momento em que ela teria saído do estabelecimento sem pagar por um produto. Apesar de ter negado a acusação, ela teve que passar pelo constrangimento de abrir a bolsa na praça central do shopping para provar que era inocente. 

“Abri a bolsa, coloquei tudo no chão, de forma que ele pudesse ver todo o conteúdo da minha bolsa. Quando ele viu que não tinha nada, disse para mim: ‘não precisava disso’, e saiu em disparada", contou ela, que prestou queixa na 16ª Delegacia (Pituba). 

O fato aconteceu no dia 17 de abril, mas somente no último domingo (5), Maria Angélica tornou o caso público, postando um texto nas redes sociais em que demonstra a sua indignação. “Esperei passar o susto, melhorar o meu estado emocional, recuperar a minha autoestima, que estava em frangalhos, para compartilhar esta tragédia racista e caluniosa, que aconteceu comigo e a minha neta de 7 anos”, declarou.

Abordagem
Ao CORREIO, Maria Angélica contou que, no dia 17 de abril, por volta das 19h, entrou na farmácia para encontrar a mãe, a filha e a neta. “Elas compravam remédios de uso diário da minha mãe, que tem 86 anos, e sofre de pressão alta e problemas cardíacos. Enquanto elas compravam, fiquei olhando alguns hidratantes. Quando já se dirigiam ao caixa para efetuar o pagamento, fui ao encontro delas. Saímos da Drogasil, fizemosr um lanche e depois fomos ao parque infantil, onde iria levar a minha neta para brincar”, relatou. 

Ela diz que, por volta das 21h, foi abordada por um funcionário da farmácia. “Do nada, fui abordada por um rapaz alto, de pele clara, que se apresentou como Willam, funcionário da Drogasil, dizendo que furtei um hidratante da farmácia. Inicialmente, achei que era uma brincadeira, uma pegadinha de algum conhecido. Ainda falei para ele que era uma brincadeira de mau gosto, mas ele disse que não, que tinha certeza, pois tinha me visto através das câmeras da farmácia”, contou. 

Maria Angélica disse que, na hora da abordagem, a neta ficou em estado de choque. “Minha neta estava apertando a minha mão com os olhos esbugalhados de medo. Perguntei para o sujeito se ele tinha ciência de que estava constrangendo a mim e a minha neta, por algo que tinha certeza absoluta de não ter feito, e ele tornou a repetir: ‘nós vimos nas câmeras’. Olhei para os lados e não vi nenhum segurança. A vontade que tinha era de me livrar depressa daquela situação vexatória, parecia que todos estavam nos olhando. Afirmei novamente: ‘moço, eu não peguei nada, minha mãe comprou um remédio e pagou, o senhor está me caluniando e me constrangendo em praça pública. O senhor quer ver minha bolsa?. Ele disse: ‘quero’”.

Então, Maria Angélica chamou uma funcionária do parque para testemunhar que ela não tinha pego nenhum hidratante. “Abri a bolsa, coloquei tudo no chão, de forma que ele pudesse ver todo o conteúdo da minha bolsa. Quando ele viu que não tinha nada, disse para mim:’ não precisava disso’ e saiu em disparada”. Nesse momento, saí do sério e comecei a gritar: ‘seu racista, mentiroso, preconceituoso, vou processar vocês, isto é crime de injúria e calúnia’”, contou a assessora de formatura e eventos.  

Neta
Maria Angélica contou ainda que, só depois de ter gritado dentro do Salvador Shopping, os seguranças foram até ela para saber o que aconteceu.  “Quando tudo acabou, minha neta, apavorada, sem dar uma palavra, de repente ela falou: ‘ Vovó, fiquei morrendo de medo, achei que o homem ia prender a gente e fazer mal’. Hoje, minha neta anda apavorada. Quando vai em um loja, não desgruda da gente”, declarou.

“Certa vez presenciei duas cenas de racismo no shopping. Dois adolescentes foram barrados na escala rolante que dão acesso à praça de alimentação”, complementou. 

Nesta quarta-feira (8), Maria Angélica irá denunciar o racismo que sofreu ao Ministério Pública da Bahia (MP-BA). Além de um processo criminal, ela também irá mover uma ação reparatória contra o Shopping Salvador e a farmácia Drogasil.  Este  é o terceiro caso em que estabelecimentos comerciais, em Salvador, são acusados de racismo neste ano. Em março, o policial militar Rafael dos Santos, 33 anos, foi proibido de entrar no Restaurante Picuí, em Jardim Armação. No mês de fevereiro, o empresário Crispim Terral, 34, foi retirado à força da agência da Caixa Econômica Federal do Relógio de São Pedro. 

Indenização
Maria Angélica regisrtrou uma queixa na Central de Atendimento do Cliente (CAC) do Salvador Shopping e prestou a queixa de racismo na 16ª DP (Pituba). Ela pediu ao shopping e a farmácia as imagens das câmeras. “Eles negaram. Só vão dar com ordem judicial. O que vai ter imagem é o meu constrangimento”, disse ela.  

Nesta quarta-feira (8), ela irá formalizar uma denúncia no MP-BA. “Vou até as últimas consequências. Se eu fosse uma mulher branca de turbante, não me abordaria. Olhe que minha neta é loira de cabelo liso, pois em nossa família tem negros de diversas cores, não é por que ela tem a pele branca que deixa de ser negra”, declarou.

Além de o processo criminal, Maria Angélica irá processar o shopping e a farmácia por dados morais. “Todos são responsáveis. O valor gira na casa dos R$ 100 mil, para cada um. Pode até ser mais. Estamos estudando ainda a gravidade do caso”, disse o advogado de Maria Angélica, Bruno Garrido.
Correio

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