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Equatorianos relatam a crise que leva o país a empilhar mortos pelo coronavírus

Por Notícia na Tela
7 de abril de 2020 21:25 Comentários
Foto: Vicente del Pino / REUTERS
Um homem acaba de morrer no meio da rua. Seu corpo coberto com uma lona azul clara está no chão de uma área central de Guayaquil, a maior cidade do Equador e principal centro econômico do país. A fotografia é devastadora e, desde que foi capturada pelas lentes de Vicente Gaibor del Pino, durante o toque de recolher de 30 de março, deixou o país na mira do mundo. Os corpos se proliferam em todos os bairros da cidade. E a pandemia, que trouxe dor e incerteza à vida de milhões de pessoas no planeta, ali transbordou.

O Equador é um dos mais afetados na América Latina, e seus sistemas de saúde público e privado entraram em colapso. Por isso, as pessoas estão morrendo em casa. Marcelo Ramírez teve que esperar cinco dias para que o Estado levasse seu tio. Uma psiquiatra  que ainda se recupera da Covid-19 e o ajudou a pressionar o governo. Uma vendedora de caixões atende o telefone a cada cinco minutos. E um médico de UTI luta sem esperanças. Essas são suas histórias.

O fotógrafo que registrou a cena
Há 10 dias, o fotógrafo Vicente Gaibor chegou à agência Reuters para substituir um colega contaminado com a Covid-19. Após cada dia de trabalho, ele se limpa freneticamente com álcool e cloro, por medo de ser o próximo contaminado. A situação é extrema, mas ele continua porque diz que a imagem que fotografou na esquina das ruas Urdaneta e Pedro Carbo, na área bancária e a duas quadras do calçadão à beira-mar de Guayaquil, pelo menos ajudou o governo a se mexer.

Eles eram tão lentos que agora, por causa da vergonha internacional, vão trabalhar.

Em 30 de março, ele perguntou à polícia quem era o homem na calçada, mas ninguém sabia o nome dele.

O homem estava em uma fila para comprar algo, andou um pouco e desabou.

Bastou andar um pouco para encontrar mais mortos afundados no abandono.

A 200 metros dali, um homem me disse que sua mãe havia falecido em sua sala havia três dias e que estava começando a apodrecer. Ele me contou que, por esse motivo, estava dormindo no jardim.

Gaibor também viu um vídeo que mostrava centenas de corpos empilhados e embrulhados em sacos pretos no hospital Teodoro Maldonado Carbo, do Instituto Nacional de Seguridade Social do Equador.

Havia alguns empilhados, eram cerca de 30, e não sei se há algum sistema para identificá-los, porque nenhum tinha nome. Quando estive em um dos cemitérios no domingo, uma garota que estava tentando organizar as pessoas disse: “Ontem eram 15, hoje são 93”.

No mesmo dia em que Gaibor fotografou o morto solitário no centro de Guayaquil, Vidal Maldonado, 92 anos, morreu em sua casa, a poucos quarteirões dali. A tosse seca persistente e a incapacidade de sair da cama foram o súbito preâmbulo de febre, perda de apetite e falta de ar, o que fez com que Marcelo Ramírez, seu sobrinho-neto, temesse o pior. Suspeitando que Vidal estava com coronavírus, Ramírez ligou cinco vezes para o telefone que o governo divulgara para pedir ajuda médica, mas a linha estava ocupada.

Dei-lhe algo para comer pela manhã e deixei-o descansar por algumas horas porque ele não dormia havia três dias. Nesse meio tempo, uma senhora que trabalhava aqui em casa me disse para me levantar para vê-lo. Meu tio já estava morto.

A emergência sanitária que Guayaquil está enfrentando impede que as ambulâncias do necrotério busquem os corpos rapidamente. Eles também não têm capacidade de fazer exames pós-morte para confirmar que tiveram coronavírus. Não há estoque de testes suficiente nem para os vivos.

No dia seguinte, vieram me dar um atestado de óbito, onde disseram que ele morreu de uma doença viral não identificada, pneumonia e insuficiência respiratória. Me indicaram que não tinham como levar o corpo, que eu teria que cuidar disso. Mas, agora, custa US$ 2.500 para enterrar rapidamente alguém morto pela Covid-19 e eu não tinha esse dinheiro.
Homem usando máscara espera cadáver de um parente em frente de um hospital em Guayaquil, no Equador Foto: ENRIQUE ORTIZ / AFP
A tragédia pegou o jovem “no pior momento possível”. Sem um emprego formal e morando com a avó de 95 anos, a única coisa que lhes restava era esperar o Estado cumprir seu papel, enquanto o corpo de seu tio-avô se decompunha com o calor e a umidade persistentes na região. O colchão onde estava o corpo começou a se encher de vermes.

Os vizinhos protestaram contra o fedor, mas Marcelo, horrorizado e triste, quase não sentiu o cheiro. A falta de olfato foi o primeiro dos vários sintomas que o fizeram pensar que também estava infectado. O segundo foi a tosse. Mas, como o custo do exame para a Covid-19 é de US$ 80, ele também não conseguiu comprovar a doença.

Outro dia cuspi sangue e hoje acordei e estava com falta de ar. Comprei remédio, broncodilatador e com isso respirei melhor — revela o jovem de 19 anos.

Em tempos normais, ele teria ido ao pronto-socorro porque já havia sobrevivido a duas pneumonias graves, mas agora, diz, não há leitos. Passaram-se cinco dias até que uma ambulância finalmente recolheu o corpo de Vidal Maldonado. Graças à intervenção de uma conhecida médica de família, Marcelo conseguiu solicitar uma transferência para o idoso que, ele presume,  foi cremado:

As cinzas são enviadas para uma vala comum. Foi o que a polícia me disse, porque nenhum de nós poderia acompanhá-lo. A última vez que vi meu tio, ele saiu embrulhado em um saco plástico preto. O colchão ainda está aqui, temos que queimá-lo.

A psiquiatra que ajuda as pessoas por telefone
A médica psiquiatra Julieta Sagnay, 47 anos, publica nas redes os casos de mortos que ninguém foi buscar para atrair a atenção da imprensa. Ela acabou de sobreviver à Covid-19, ainda está se recuperando, mas continua trabalhando na casa onde permanece em quarentena rigorosa.

Estou ajudando as pessoas a removerem os cadáveres das casas, porque, se ficarem por três ou quatro dias, Guayaquil pode se contaminar. Eu tento ajudar no telefone de mil maneiras e isso me faz sentir bem — conta ela, que continua trancada no seu quarto, longe do marido e dos filhos. 

Eles estão lá embaixo e eu não posso tocá-los ou abraçá-los, não posso andar pela casa. Eles deixam comida do lado de fora.

Julieta acha que contraiu a doença durante uma consulta. Ela reconhece que, como muitos, subestimou os primeiros sintomas. E, como não havia uma posição clara e firme por parte do governo em relação à doença, não levou a sério. 

Pensei que fosse uma gripe e ia passar. As autoridades disseram que estávamos preparados, mas não era real. Por favor, não cometam esse erro e tomem as precauções a tempo.

Em 18 de março, e depois de alguns dias com febre indo e vindo e tosse seca, Julieta foi testada para o coronavírus. Até hoje não recebeu o resultado. Quando começou a piorar, ela entrou em contato com um médico particular e, sob sua orientação, foi para um hospital particular, onde fizeram uma tomografia computadorizada. O exame revelou sérios danos aos pulmões. A clínica onde planejava ir estava lotada, então, ela procurou um hospital menor, fora da cidade.


Vim para Milagros, onde havia bons cuidados, mas não havia um esquema de tratamento.

Só a  chegada de remédios prescritos por seu médico pessoal, usados em pacientes imunodeprimidos a um custo de cerca de US$ 500, permitiu que Julieta não fosse para a UTI, onde seria  entubada.

Eu estava com medo, mais medo do que fé, porque vi minha irmã, que também é médica, chorando, e sabia o quanto a coisa era séria. Muitas pessoas estavam morrendo. As enfermeiras tomavam os sinais vitais, mas fiquei aterrorizada ao vê-las porque estavam desprotegidas. À noite, ouvia pessoas tossirem e no dia seguinte sabia que elas estavam mortas. Tive o privilégio de ter conseguido o medicamento. Mas as empresas farmacêuticas subiram os preços. Isso, somado ao fato de que nós, de Guayaquil, somos muito indisciplinados e que os canais de comunicação não estão sendo adequados, é uma armadilha mortal. Aqui haverá mais mortes.

A dona da funerária que recebe milhares de ligações
Os números oficiais mostram 3.700 casos e 191 mortes pela Covid-19 no Equador. No entanto, para Viviana Olivares, proprietária da Funerária Olivares, a conta não fecha: 

Sempre houve muita demanda, mas nunca como agora. Nós sempre vendemos no máximo 100 caixões por mês, mas agora vendo 150 por semana.

Ela calcula que deve haver mais de mil mortos, com uma média diária de 200. Nascida e criada entre caixões, Viviana se sente dentro de um filme de terror: seu telefone toca a cada cinco minutos com pessoas que imploram para receber um caixão. 

 As pessoas estão desesperadas para enterrar seus mortos, e nem sequer têm tempo para velá-los.

Ela conta que, para conseguir um lugar no cemitério, há filas de até dois dias. O mesmo tempo que leva o Registro Civil para emitir atestados de óbito. O trabalho é incessante e, apesar de o negócio estar indo melhor que nunca, isso a deixa à beira das lágrimas. 

A maioria das casas funerárias está desabastecida. Há muitas que fecharam completamente as portas. Embora eu entenda por que a polícia esteja praticamente forçando-as a abrir, muitos estão assustados.

Os preços dos caixões subiram tanto quanto o número de infectados. Há aqueles que custam US$ 1.500. No entanto, Viviana continua a vendê-los por preços entre US$ 500 e US$ 700: 

É horrível. Você tem que ver tantas pessoas morrendo e ao mesmo tempo é o seu negócio. Eu gostaria que isso parasse, porque definitivamente não é esse o caminho. Na última parte da doença, as pessoas se afogam e o coração para.

O médico intensivista que tem crises de ansiedade
É uma cena de guerra — diz o médico especializado em terapia intensiva Marcelo Castillo, de 33 anos. — Eu tenho que ter cabeça fria para funcionar, mas vivo com ansiedade desde o momento em que acordo até adormecer. Não há colega que não me diga que não chora à noite ou trabalhando, alguns estão tomando tranquilizantes.

Castillo é o único médico intensivista em uma pequena clínica privada na área norte de Guayaquil, a mais rica. Desde meados de março, o local teve que adaptar sua capacidade para uma emergência sem precedentes: o trabalho aumentou cinco vezes. 

É desastroso, apocalíptico. Estou trabalhando de sol a sol. Não existe um sistema de saúde preparado para absorver a demanda brutal desta doença. Ataca indiscriminadamente jovens e idosos. Há pacientes que estavam quase saindo e, de repente, sofrem uma complicação e morrem.

A emergência sanitária devastou o sistema público e também o privado. Castillo afirma que apenas dois pacientes seus morreram, mas que tem colegas em clínicas maiores, com 50 pessoas conectadas a respiradores, que perdem pacientes todos os dias: 

Todos estão cheios. Estou em um chat em que está grande parte dos intensivistas do país. Todos os dias procuram leitos e ninguém consegue.

Não é a única carência. Os recursos físicos e humanos são limitados. 

Não temos respiradores suficientes. Mesmo se tivéssemos, não tenho pessoal humano nem suprimentos necessários para atender a todos. Nesta clínica mesmo, muitas vezes não há médicos que querem vir e eu os entendo. Tenho 33 anos. Claramente posso ficar doente, mas, se ficar, tenho um pouco mais de chances de sobreviver graças à minha idade. Mas diga isso a um intensivista de 50, 60 ou 65 anos. Já conheço vários que tiveram que ser entubados.

A ausência de médicos é um dos problemas mais sérios. Até o momento, há uma dúzia de médicos mortos e mais de 1.600 infectados pelo coronavírus na cidade. A emergência levou o vice-ministro da Saúde, Ernesto Carrasco, a comunicar que 250 médicos rurais serão deslocados para os hospitais de Guayaquil. Mesmo assim, para Castillo, a Covid-19 está tão disseminada na cidade que agora é quase como jogar uma moeda no ar: 

A curva de cuidados intensivos nunca será achatada, porque quem estiver mal, estará mal. Não importa qual medicamento você dê. Alguns ajudaram, mas isso é uma loteria — diz ele, sem esperanças.
O Globo
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