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Bahia é o segundo estado com mais mortes violentas do Brasil

Por Notícia na Tela
29 de junho de 2022 11:40 Comentários
Reprodução
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgados na terça-feira (28), apontam que das 30 cidades com mais mortes violentas no país, cinco estão na Bahia. Destas cincos, Wenceslau Guimarães está na lista com registro de 64 mortes entre 2019 e 2021.

Todos os municípios estão localizados na região sul do estado e representam 16,7% das localidades com mais mortes violentas do Brasil entre os anos de 2019 e 2021. O estado tem a maior taxa de mortes violentas do país.

Para rankear as cidades, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública analisou a taxa de mortes violentas a cada 100 mil habitantes. As cidades da Bahia e suas respectivas taxas são: Aurelino Leal (144,2), Jussari (120,9), Itaju do Colônia (111), Wenceslau Guimarães (103,3) e Santa Cruz Cabrália (102,6).

A categoria de mortes violentas diz respeito à soma de vítimas de homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais em serviço ou fora. A Bahia como um todo registrou 44,9 mortes a cada 100 mil habitantes em 2021 - o que representa um aumento de 0,1 pontos percentuais em relação ao ano anterior. É a maior taxa para o estado desde de 2017, quando foram 45,5 vítimas a cada 100 mil pessoas. A capital baiana, segundo o levantamento, é a segunda que mais registrou mortes violentas em 2021, com taxa de 55,6.

Fora do radar
Das cinco cidades que aparecem na lista do Anuário, três estão localizadas em zonas rurais: Jussari, Itaju do Colônia e Wenceslau Guimarães. Por serem zonas de acesso mais difícil, os combates acontecem de modo distinto. Iago Alves, residente de Aurelino Leal cita os facões como objeto comum durante crimes na região.

Outra característica é a fuga por matagais, conhecendo a região, criminosos conseguem se esconder na mata durante dias para despistar a polícia, afirmam moradores. Em setembro do ano passado, duas pessoas morreram e três ficaram feridas em um assalto a uma fazenda em Santa Cruz Cabrália. Um trio armado invadiu a propriedade e rendeu as sete pessoas que estavam no local. Na ocasião, Antônio Eler Gomes, de 62 anos, foi morto com vários tiros pelos ladrões.

Em março deste ano, uma mulher identificada como Rayssa Santana matou o filho de 1 ano e 4 meses asfixiado no distrito de Cocão, na zona rural de Wenceslau Guimarães. Após o crime, ela se matou. Antes de matar o bebê, a mulher ainda gravou um vídeo de despedida com a criança no colo.

Enquanto número de homicídios diminui no Brasil, Bahia registra aumento
O registro de ocorrências de homicídios dolosos, quando há morte intencional, teve aumento de 2% entre 2020 e 2021 na Bahia, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Enquanto que no primeiro ano foram 5.087 ocorrências e 5.360 vítimas, no ano passado os números saltaram para 5.206 homicídios com 5.532 mortes.

O cenário do estado vai na contramão do que acontece nacionalmente. No mesmo período analisado, houve redução de 6,8% no número de ocorrências de homicídios no país e diminuição de 6,6% no total de vítimas. Políticas públicas eficientes em outros estados justificam a diminuição do índice no contexto nacional, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.

Além da Bahia, outros seis estados também registraram incremento no número de ocorrências, são eles: Amazonas (48,3%), Amapá (28%), Roraima (12,8%), Piauí (11,4%), Rondônia (7,8%) e Mato Grosso do Sul (0,8%). O estado que mais reduziu o número de homicídios foi o Acre (-39,6%).

Bahia ocupa o quinto lugar em mortes por policiais
Na lista que possui todos os estados e o Distrito Federal, a Bahia figura em quinto lugar no ranking de letalidade em decorrência de ações policiais em 2021. A taxa de pessoas mortas é de 6,7 a cada 100 mil habitantes, mais do que o dobro da média nacional, que é de 2,9. Em números absolutos, o estado só perde para o Rio Grande do Norte.

Somente no ano passado, 1.010 pessoas morreram na Bahia por conta de ações das polícias Civil e Militar. Apesar do número ser alto, representa uma redução de 11,2% em comparação com o total de vítimas em 2020. Naquele ano, operações das forças militares mataram 1.138 pessoas no estado.

Para Luciene Santana, pesquisadora da Rede de Observatórios da Segurança e da Iniciativa Negra na Bahia, a letalidade policial é um reflexo da ineficiência da política de segurança que preza pelo confronto. "A política de segurança pública da Bahia se espelha na do Rio de Janeiro, que é o pior exemplo do país. Essa forma de fazer segurança reproduz um modelo de guerra que resulta em ainda mais mortes de civis e agentes públicos", explica.

Desde que o Fórum Brasileiro de Segurança Pública começou a analisar o retrato da violência no país, em 2007, o perfil das vítimas de intervenções policiais tem se repetido ano após ano. A violência policial atinge, na Bahia e no Brasil, homens, jovens e negros de maneira desproporcional. No último ano no país, 99,2% dos mortos eram do sexo masculino e 52,4% tinham no máximo 24 anos.

Em relação à cor da pele, enquanto a mortalidade entre vítimas brancas diminuiu 30,9% em 2022, a taxa de vítimas negras cresceu em 5,8%.

Número de latrocínios cresce 26% na Bahia
Ainda segundo o levantamento, casos de roubo seguido de morte, conhecidos popularmente como latrocínio, tiveram aumento de 26% no estado em 2021, ao comparar com 2020. Foram 137 mortes em números absolutos, 29 casos a mais que no ano anterior.

À vista da diminuição de casos, especialistas na área criminal apontam para a necessidade de políticas públicas em relação a direitos de inclusão social. O objetivo é a diminuição da desigualdade social no país, gerador do alto índice de criminalidade. Para isso, a geração de emprego é citada como meio possível ao Estado, com a finalidade de consolidar a possibilidade de renda para mais cidadãos.

Amazônia tem 13 das 30 cidades com mais mortes violentas
Enquanto a Bahia acumula 5 cidades, a região amazônica soma 13 municípios dos 30 com alta taxa de mortes violentas intencionais. O número é resultado da quantidade de estados em que o bioma está presente. A exemplo de Jacareacanga, no Pará, cuja taxa é de 199,2 mortes por 100 mil habitantes, sendo o segundo município mais violento do país.

As cidades que completam a lista são: no Pará, Floresta do Araguaia (133,0), Cumaru do Norte (113,2), Senador José Porfírio (109,8), Anapu (107,1), Novo Progresso (106,1) e Bannach (101,8). Em Rondônia, Santa Luzia D"Oeste (139,0), São Felipe D"Oeste (138,3). No Maranhão, Junco do Maranhão (107,2). Em Mato Grosso, Aripuanã (120,2), Glória D"Oeste (110,8) e no Amazonas, Japurá (114,0).

As localidades ainda se encontram em proximidade com terras indígenas e, assim, espelham a realidade de violência, por meio do desmatamento e garimpo ilegal, apontada por ambientalistas e representantes de comunidades autóctones.

O esquema ainda aponta para as mortes do jornalista Dom Phillips e indigenista Bruno Pereira, nos quais os suspeitos do assassinato fazem parte de uma quadrilha de pescadores ilegais em região amazônica.

O que diz a SSP
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia (SSP) contestou os dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e informou que a média de mortes dos últimos três anos não ultrapassou dois casos mensais. Segundo a SSP, entre o triênio 2019 e 2021, foram registradas 80 mortes em Santa Cruz Cabrália, 64 em Wenceslau Guimarães, 33 em Aurelino Leal, 19 em Jussari e 18 em Itaju do Colônia.

A pasta justificou que "considera que o ranking divulgado apresenta uma realidade distorcida, já que as cidades analisadas possuem, no máximo, 27 mil habitantes (Santa Cruz Cabrália), o que, obviamente, impacta no cálculo da taxa por 100 mil habitantes". A SSP reforçou que o estado apresentou redução de mortes violentas em 11,4% entre janeiro e maio deste ano.

Já sobre os dados referentes à letalidade em ações da polícia, a SPP diz que "as Polícias Civil e Militar são pautadas para atuar dentro da legalidade e do uso proporcional da força. Casos que fujam dessas premissas devem ser denunciados para que as medidas legais sejam adotadas".

A pasta lembra ainda que está em processo de análise para a aquisição das bodycams, câmeras corporais que serão acopladas aos fardamentos com objetivo de oferecer cada vez mais transparência às ações policiais.

A reportagem entrou em contato com a Polícia Civil e o Ministério da Justiça e Segurança Pública solicitando posicionamento acerca das taxas de violências no interior baiano, mas não recebeu retorno. Assim como requeriu às prefeituras de Aurelino Leal, Jussari, Itaju do Colônia, Wenceslau Guimarães e Santa Cruz Cabrália as medidas de segurança nas regiões, no entanto, não foi atendida.
Correio
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